A governança de IA não é apenas uma questão de conformidade. Quando estruturada de forma eficaz, ela se torna um dos principais impulsionadores da geração de valor e da gestão de riscos corporativos. Conselhos que aplicam princípios básicos de governança de IA estão mais bem preparados para acelerar a integração dessa tecnologia, impulsionar a inovação, aumentar a eficiência operacional e oferecer produtos e serviços de maior qualidade.
No entanto, de acordo com a Pesquisa Impacto da IA 2026 da Grant Thornton, a maioria dos conselhos está aquém dessas responsabilidades básicas. Neste relatório, definimos organizações com forte supervisão de IA como aquelas cujos conselhos:
Participaram de apresentações ou sessões de capacitação sobre IA;
Estabeleceram expectativas relacionadas a políticas ou governança de IA; e
Integraram os riscos e as oportunidades da IA à supervisão contínua do conselho ou de seus comitês.
Embora essas práticas pareçam responsabilidades básicas de governança, apenas 11% dos 950 líderes empresariais entrevistados afirmaram que seus conselhos adotaram as três medidas. Os dados da pesquisa mostram o que essas organizações estão alcançando, e o que as demais estão deixando de capturar.
Organizações com forte supervisão
2x mais propensas a ter a IA totalmente integrada às operações do que a média da amostra (28% versus 14%), e
Quase 3x mais propensas a ter IA agêntica totalmente integrada (26% versus 9%).
Essas organizações também demonstram maior confiança em seus controles e são 4x mais propensas a afirmar que suas iniciativas de IA não apresentam desempenho abaixo do esperado.
“Essas empresas provavelmente estão tratando a IA como uma categoria de risco corporativo, e não apenas como uma iniciativa tecnológica. Elas estão criando equipes multidisciplinares para liderar os esforços de implementação e governança, implantando controles que previnem riscos previsíveis, monitorando os riscos que não conseguem evitar e protegendo-se contra aqueles que não conseguem prevenir nem detectar”, afirma Johnny Lee, sócio de Risk Advisory Services da Grant Thornton.
Os conselhos devem questionar a administração sobre quem compõe essa equipe multidisciplinar, e, caso ela não exista, entender o motivo. Acima de tudo, é importante garantir que uma única área funcional, como Tecnologia da Informação, não esteja conduzindo sozinha a implementação da IA.
Nossa Pesquisa Impacto da IA mostra um desalinhamento entre CIOs/CTOs e COOs em relação às necessidades de governança de IA e à preparação da força de trabalho. Os resultados revelam que uma abordagem isolada, orientada exclusivamente pela perspectiva de Tecnologia da Informação, não atende adequadamente às necessidades das áreas de Operações, Finanças, Recursos Humanos e Jurídico que utilizam essa tecnologia.
Esse desalinhamento ameaça comprometer os benefícios que a IA pode gerar. Por outro lado, conselhos proativos podem ajudar suas organizações a construir um caminho sólido para capturar valor significativo com a inteligência artificial.
Aceleração da inovação e melhoria da qualidade
Uma forte supervisão do conselho de administração proporciona às organizações a estrutura e a disciplina necessárias para impulsionar a inovação com IA e utilizar a tecnologia para aprimorar a qualidade de produtos e serviços.
59% das organizações com forte supervisão do conselho afirmaram que a IA está acelerando a inovação, em comparação com apenas 31% do total de respondentes da pesquisa. Além disso, por uma margem de 53% contra 43%, as organizações com conselhos mais atuantes foram mais propensas a afirmar que a IA está ajudando a entregar resultados de maior qualidade.
Expectativas claras de governança de IA estabelecidas pelo conselho favorecem a inovação ao criar uma estrutura para diálogo, experimentação segura e implementação responsável da tecnologia. Discussões conduzidas pelo conselho sobre níveis aceitáveis de risco, uso de dados e transparência dos modelos se traduzem em marcos concretos de governança, permitindo que as equipes deixem de agir com incerteza sobre o que é permitido, desenvolvam protótipos com mais agilidade e direcionem seus esforços para escalar iniciativas bem-sucedidas, descartando aquelas que não apresentam resultados.
As políticas de IA aprovadas pelo conselho também contribuem para um melhor alinhamento entre inovação e estratégia corporativa desde o início, evitando que as equipes invistam tempo e recursos em projetos-piloto que teriam poucas chances de avançar nas etapas posteriores de desenvolvimento.
Da experimentação à excelência operacional em IA
Ao mesmo tempo, expectativas claras para o uso da IA promovem maior disciplina no desenvolvimento de produtos e serviços, o que, por sua vez, resulta em entregas de maior qualidade. Equipes que operam com políticas definidas de IA e diretrizes de governança bem estabelecidas desenvolvem sistemas que atendem a padrões consistentes, incluindo:
Verificações mais rigorosas da qualidade dos dados;
Processos mais robustos de validação e monitoramento de modelos;
Processos de tomada de decisão devidamente documentados.
Como parte de seu papel contínuo de supervisão, os conselhos de administração devem garantir que a gestão esteja cumprindo suas responsabilidades, por meio de perguntas como:
Como a empresa está promovendo a preparação, a qualidade e a segurança dos dados?
Foi estabelecido um ambiente seguro e controlado para experimentação com IA, capaz de proteger dados e propriedade intelectual?
Qual é a abordagem da liderança para a gestão da mudança? Essa abordagem contempla uma comunicação clara com colaboradores e parceiros?
Como os colaboradores estão sendo capacitados para utilizar a IA?
Como os líderes estão se preparando para liderar essa transformação?
“Essa é apenas metade da equação. A outra metade consiste em monitorar proativamente para garantir que não estamos nos afastando dessas ambições mais elevadas durante a implementação”, afirmou Lee.
Superando os gaps de competências em IA
Nossa pesquisa revela um cenário mais complexo sobre os efeitos da supervisão do conselho na preparação da força de trabalho. Entre as organizações com forte liderança do conselho em IA, 27% afirmam que seus colaboradores estão totalmente preparados para adotar a tecnologia, em comparação com apenas 12% da amostra total.
No entanto, esse otimismo esconde desafios importantes. Por uma margem de 60% contra 36%, as organizações com forte supervisão do conselho são mais propensas a afirmar que a falta de talentos ou de qualificação está impedindo a expansão efetiva da IA. Da mesma forma, 40% das empresas com conselhos mais ativos relataram que o treinamento insuficiente causou baixo desempenho ou fracasso de iniciativas de IA, contra 31% na pesquisa geral.
Uma análise mais aprofundada mostra que, quando os participantes puderam selecionar até três fatores que dificultam a ampliação da IA, as organizações com forte supervisão do conselho foram menos propensas a apontar como obstáculos:
Falta de governança de IA ou de diretrizes para uso responsável (5%, contra 21% da amostra total);
Incertezas regulatórias ou de conformidade (33%, contra 51%);
Baixa qualidade dos dados ou desafios de integração de dados (8%, contra 31%).
Esses resultados indicam que as organizações cujos conselhos têm foco em IA já avançaram nos desafios fundamentais relacionados à governança, conformidade e gestão de dados. Isso permitiu que direcionassem sua atenção para uma etapa mais avançada e complexa da adoção da IA: a capacitação das pessoas.
Como preparar a força de trabalho para a era da IA
A adoção da IA pela força de trabalho exige profundidade estratégica por parte da gestão. Não basta apresentar uma visão, disponibilizar uma licença corporativa de IA e esperar que os colaboradores descubram sozinhos como utilizá-la. Para gerar retorno sobre os investimentos em IA, a liderança precisa:
Redesenhar processos para viabilizar melhorias impulsionadas por IA;
Oferecer treinamentos específicos por função, ajudando os colaboradores a incorporar a IA em suas atividades diárias.
Essa abordagem também contribui para enfrentar um dos principais desafios das organizações: atrair e reter talentos qualificados. Líderes que adotam a IA de forma estratégica tendem a fortalecer sua capacidade de recrutamento e retenção de profissionais.
Ao mesmo tempo, os conselhos de administração precisam assegurar que o outro lado dessa transformação seja adequadamente gerenciado. A IA pode provocar mudanças significativas na força de trabalho e aumentar preocupações relacionadas à substituição de funções.
Segundo Lee, os conselheiros devem questionar a administração sobre temas como:
Como a organização está lidando com os impactos da IA na força de trabalho?
A implementação da IA em determinadas áreas está sendo utilizada para identificar reduções de quadro?
Como a empresa está comunicando aos colaboradores que eles não estão sendo solicitados a treinar ferramentas que possam substituir seus próprios empregos?
Construindo confiança e melhorando o desempenho
Os líderes cujos conselhos exercem uma supervisão efetiva sobre a IA possuem uma vantagem significativa em relação aos seus pares, tanto em termos de confiança quanto de desempenho.
Apenas 22% dos respondentes da pesquisa como um todo afirmaram estar muito confiantes de que suas organizações conseguiriam passar por uma auditoria independente de governança e controles de IA. Entre as organizações com conselhos fortemente engajados no tema, esse percentual sobe para 37%. Embora ainda exista espaço para evolução, esse resultado demonstra que uma supervisão ativa do conselho contribui para a adoção de soluções de IA mais transparentes, mensuráveis e defensáveis.
A vantagem em desempenho dessas organizações é ainda mais expressiva. Quando questionadas sobre os motivos para o baixo desempenho da IA, 34% das organizações com forte governança afirmaram que suas iniciativas de IA não apresentavam qualquer problema de desempenho. Na amostra total, apenas 8% deram a mesma resposta.
Esses resultados mostram que organizações cujos conselhos estabelecem uma governança robusta para IA conseguem reduzir a desorganização, minimizar retrabalho e direcionar a inovação para áreas onde existem oportunidades reais de geração de valor e vantagem competitiva. Essas organizações tendem a:
Contar com dados bem governados, fornecendo à IA os insumos necessários para maximizar seu impacto;
Promover a colaboração entre diferentes áreas da empresa e evitar esforços duplicados em estruturas isoladas;
Desenvolver confiança nas soluções de IA e fortalecendo a credibilidade dos resultados apoiados pela tecnologia.
Ainda não existe um padrão amplamente consolidado para auditorias independentes de governança e controles de IA. No entanto, Lee acredita que essa é apenas uma questão de tempo, especialmente porque já existem diversos frameworks que podem servir de referência para esse tipo de avaliação. Os conselhos de administração devem exigir que a liderança estabeleça controles robustos, documentação adequada e trilhas de auditoria que permitam comprovar a governança e a conformidade das iniciativas de IA quando esse tipo de avaliação se tornar uma prática mais difundida.
Principais conclusões
Neste momento decisivo para empresas de todos os setores, os conselhos de administração que adotam uma postura ativa em relação à governança da IA podem estabelecer as bases para que suas organizações superem a concorrência. Para obter essa vantagem competitiva, os conselhos precisam:
Exigir apresentações formais sobre capacidades de IA pelo menos uma vez por ano. Os conselheiros não precisam de formação em ciência da computação nem experiência em programação. Eles precisam compreender as capacidades da IA, como elas podem apoiar a estratégia da organização e, principalmente, quais mecanismos de governança são necessários para garantir uma adoção segura e eficaz.
Estabelecer políticas e expectativas de governança adequadas ao negócio. A IA deve estar alinhada aos objetivos e valores da organização. Os conselhos precisam assegurar que a gestão desenvolva e mantenha políticas que equilibrem inovação e responsabilidade, promovam princípios éticos centrados nas pessoas e garantam conformidade com regulamentações emergentes, além de boas práticas de segurança e privacidade.
Institucionalizar a supervisão da IA como item permanente da agenda do conselho. Riscos e oportunidades relacionados à IA devem fazer parte da pauta regular do conselho, e, em alguns casos, também de um comitê específico. Essa é a melhor forma de garantir que as políticas e expectativas de governança sejam cumpridas e de criar um processo contínuo para avaliar questões emergentes relacionadas a uma tecnologia que evolui rapidamente.
Um conselho que adota essas práticas pode ajudar a organização a implementar a IA com mais rapidez, capturando seus benefícios sem assumir riscos desnecessários.
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