Impairment 2026: quatro temas essenciais que exigem atenção

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Por: Rodrigo Nigri

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Companhias que possuem em seus balanços goodwill (ágio) ou demais ativos com vida útil indefinida devem realizar o teste de recuperabilidade, no mínimo, em bases anuais, bem como quando exista evidência indicativa de eventual perda. Com a aproximação do fechamento do exercício, as administrações das companhias começam a revisar as premissas e projeções que suportam esses estudos. 

Embora integre a rotina de reporte financeiro, o processo ganha complexidade adicional neste ciclo, marcado por transformação tecnológica, mudança regulatória e pressão sobre a liquidez. 

O IAS 36 (CPC 01) determina que as projeções de fluxo de caixa sejam baseadas em premissas razoáveis e fundamentadas, que representem a melhor estimativa da administração sobre as condições econômicas ao longo da vida útil do ativo. Nesse contexto, destacamos quatro temas que, apesar de não serem exaustivos e não necessariamente aplicáveis a todas as indústrias e companhias, merecem atenção especial nos testes de impairment de 2026.

1. Inteligência artificial: riscos e ganhos têm tratamentos distintos 

A inteligência artificial vem alterando setores inteiros, seja por meio de ganhos de eficiência operacional, seja pela transformação da dinâmica competitiva e da demanda por determinados produtos e serviços. 

Nos testes de impairment, porém, esses efeitos não recebem o mesmo tratamento. No cálculo do valor em uso, os fluxos de caixa devem refletir o ativo em sua condição atual, sem considerar benefícios decorrentes de melhorias, iniciativas ou reestruturações que ainda não tenham sido efetivamente implementadas ou comprometidas pela companhia. Assim, ganhos de eficiência decorrentes de iniciativas de IA ainda não implementadas não devem ser antecipados nas projeções.  

Por outro lado, riscos de redução de demanda, pressão sobre preços ou obsolescência de modelos de negócio precisam ser considerados. Essa assimetria faz com que, em muitos casos, a IA represente um fator de pressão sobre o valor recuperável antes de representar um fator de sustentação. 

2. Reforma tributária: efeitos sobre preços, margens e estrutura operacional 

Com 2026 marcando o período de teste da CBS e do IBS e a transição prevista até 2033, os efeitos da reforma tributária passam a demandar tratamento explícito nas projeções caso já mensurados e testados pela companhia. 

Os impactos vão além da carga tributária. Mudanças na formação de preços, na estrutura da cadeia de suprimentos e na localização de operações, bem como a extinção gradual dos incentivos fiscais, podem alterar as expectativas de crescimento, rentabilidade e geração de caixa. Para empresas cuja margem depende de benefícios fiscais, o tema é particularmente sensível.  

O principal desafio está em traduzir esses efeitos em premissas consistentes e adequadamente documentadas para fins de impairment. 

3. Capital de giro e o aumento das recuperações judiciais 

A pressão sobre o capital de giro permanece relevante em diversos setores, com alongamento dos prazos de recebimento, maior seletividade na concessão de crédito e maior volatilidade na capacidade de pagamento de clientes e fornecedores. 

Esse cenário se torna mais sensível diante do aumento dos pedidos de recuperação judicial. Mesmo empresas com desempenho operacional sólido podem sofrer impactos relevantes em sua geração de caixa quando contrapartes importantes enfrentam dificuldades financeiras. Adicionalmente, o mecanismo de split payment previsto na reforma tributária tende a alterar o ciclo financeiro de muitas companhias. 

Por essas razões, a análise da conversão de resultado em caixa deve receber atenção equivalente à das premissas de crescimento de receita. 

4. Taxas de juros elevadas e custo de capital 

Nas discussões de impairment, é comum que as projeções operacionais recebam mais atenção do que a taxa de desconto. No entanto, pequenas alterações no custo de capital podem produzir efeitos significativos sobre o valor recuperável de ativos e unidades geradoras de caixa. 

Em um ambiente ainda marcado por juros elevados e incertezas macroeconômicas, a fundamentação de cada componente do WACC é essencial, assim como a consistência entre fluxos de caixa e taxa de desconto (no valor em uso, antes dos impostos). Quando uma mudança razoavelmente possível em premissas-chave eliminaria a folga do teste, a norma exige a divulgação da respectiva análise de sensibilidade, aspecto frequentemente objeto de questionamento por auditores e reguladores. 

Considerações finais 

Os testes de impairment deste ano exigem um olhar mais crítico sobre as premissas adotadas. Mais do que verificar a correção técnica dos modelos, é necessário avaliar se eles continuam descrevendo o negócio como ele é hoje, e não como era quando as premissas foram originalmente definidas. 

Em um ambiente marcado por avanços tecnológicos, mudanças regulatórias, pressões sobre capital de giro e taxas de juros ainda elevadas, a revisão dessas premissas torna-se um exercício essencial para assegurar que os testes reflitam adequadamente a realidade econômica da companhia e forneçam suporte consistente à tomada de decisões.