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Governança em inteligência artificial: o desafio de inovar com responsabilidade

Por: Maikon Silva

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A inteligência artificial deixou de ser uma iniciativa restrita às áreas de tecnologia. Hoje, ela influencia processos, decisões, modelos operacionais e estratégias corporativas, tornando-se uma pauta cada vez mais presente na agenda da alta liderança e dos conselhos de administração. 

Segundo a CFO Survey Q2 2026 da Grant Thornton, cerca de 67% dos líderes financeiros pretendem ampliar investimentos em inteligência artificial e transformação digital nos próximos 12 meses, mesmo em um cenário de menor otimismo econômico. O dado reforça que o debate já não está centrado na decisão de investir ou não em IA, mas na capacidade de transformar esses investimentos em resultados mensuráveis para o negócio. 

Ao mesmo tempo, a discussão sobre IA passa por uma mudança importante. Segundo Maikon Silva, sócio de IT Risk da Grant Thornton: “A discussão deixou de ser se a empresa deve investir em inteligência artificial. A questão agora é como garantir que esses investimentos produzam resultados mensuráveis.”

Da experimentação individual à estratégia empresarial 

Em muitas empresas, a adoção da inteligência artificial começou de forma descentralizada. Equipes passaram a utilizar ferramentas para produzir conteúdo, automatizar tarefas, organizar informações e acelerar processos. Essa fase foi importante para estimular a experimentação.  

No entanto, o amadurecimento da IA exige uma mudança de abordagem. Antes de perguntar onde a inteligência artificial pode ser utilizada, as organizações precisam responder uma questão mais estratégica. A grande pergunta não é onde investir em inteligência artificial, mas onde a inteligência artificial gera resultado no negócio. 

Onde a IA muda o resultado do negócio? 

Mais do que implementar tecnologia, é preciso compreender como ela contribui para indicadores concretos, como: 

  • receita; 
  • margem; 
  • capacidade operacional; 
  • qualidade; 
  • experiência do cliente; 
  • redução de riscos.  

Se nenhum desses fatores se altera, vale questionar qual valor está sendo efetivamente escalado. A geração de valor acontece quando a tecnologia está conectada a objetivos estratégicos claros e a problemas de negócio relevantes. 

Outro desafio recorrente é iniciar projetos a partir da tecnologia e não do problema empresarial. Iniciativas bem-sucedidas normalmente começam pela identificação de uma necessidade concreta do negócio, como aumento de custos, perda de clientes, queda de margem ou ineficiências operacionais. A partir desse diagnóstico, a tecnologia passa a atuar como meio para solucionar um problema real e gerar impacto mensurável. 

Embora muitas organizações concentrem investimentos em iniciativas voltadas à produtividade, especialistas alertam que o maior potencial de geração de valor está nas aplicações conectadas ao núcleo estratégico das empresas. 

Governança impulsiona valor e confiança 

A governança de inteligência artificial não é um freio. Ela é uma alavanca para que as organizações avancem com confiança, gerenciem riscos e consigam demonstrar valor para o negócio. 

Nesse sentido, governança e geração de valor passam a estar diretamente relacionadas. Segundo a pesquisa AI Impact 2026, organizações com iniciativas de IA bem-sucedidas investem até quatro vezes mais em fundamentos como dados, governança e gestão da mudança do que organizações com menor maturidade em IA, e demonstrando que esses elementos são parte essencial da infraestrutura necessária para capturar resultados sustentáveis. 

Longe de representar uma barreira à inovação, a governança cria as condições necessárias para que as organizações avancem com mais segurança, confiança e capacidade de escala. 

Os dados mostram que o desafio não está apenas na adoção da tecnologia, mas na capacidade de gerar confiança e retorno para o negócio. Atualmente, apenas 39% dos executivos acreditam que os investimentos em IA produzirão impacto financeiro positivo, enquanto 46% apontam barreiras de governança ou compliance entre as principais causas do baixo desempenho das iniciativas. 

A necessidade de fortalecer mecanismos de supervisão também aparece quando o tema é asseguração. Em um cenário de rápida evolução tecnológica, a capacidade de medir resultados, supervisionar riscos e demonstrar confiança passa a ser um diferencial competitivo para organizações que desejam transformar investimentos em valor sustentável.

Organizações não têm confiança suficiente de que conseguiriam passar por uma auditoria independente

O papel da alta liderança e dos conselhos  

A inteligência artificial não deve ser tratada apenas como uma pauta tecnológica. Suas implicações envolvem estratégia, reputação, riscos, conformidade, cultura organizacional e sustentabilidade dos negócios. 

À medida que as organizações buscam capturar valor com a tecnologia, torna-se necessário estabelecer mecanismos claros de supervisão, prestação de contas e acompanhamento dos resultados. Nesse contexto, confiança não é resultado apenas da implementação de controles. Ela depende da capacidade de demonstrar que as iniciativas de IA estão alinhadas à estratégia do negócio, são monitoradas continuamente e contam com responsáveis claramente definidos. 

Por isso, lideranças e conselhos precisam formular perguntas fundamentais: 

  • Qual valor a iniciativa pretende gerar? 
  • Como esse valor será medido? 
  • Quais riscos estão envolvidos? 
  • Quem responde pelos resultados produzidos? 
  • Quais controles foram implementados? 

Os conselhos não precisam dominar todos os aspectos técnicos da inteligência artificial. Entretanto, precisam estar preparados para formular as perguntas corretas sobre geração de valor, riscos, supervisão, transparência e impactos para o negócio. 

Além disso, a construção de uma cultura responsável é essencial. Políticas que apenas restringem o uso da tecnologia, sem fornecer direcionamento adequado, podem incentivar iniciativas paralelas e reduzir a visibilidade sobre os riscos efetivamente existentes. 

A responsabilidade continua humana 

Embora a inteligência artificial seja capaz de processar grandes volumes de dados, identificar padrões e apoiar decisões complexas, a responsabilidade pelos resultados permanece humana. 

 “Sempre haverá um responsável. Independentemente do grau de autonomia da tecnologia, a supervisão humana permanece essencial.”, pontua Maikon. 

Modelos podem gerar respostas incorretas, reproduzir vieses ou produzir conteúdos que exigem validação especializada. Por isso, supervisão, julgamento profissional e accountability continuam sendo componentes indispensáveis de qualquer estratégia de IA. Quanto maior o impacto potencial da decisão, maior deve ser o nível de monitoramento e validação. 

A adoção responsável da tecnologia também depende da capacitação das pessoas. Mais do que conhecer as ferramentas, profissionais e lideranças precisam compreender seus limites, riscos e responsabilidades. A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de análise das organizações, mas não substitui o discernimento humano na tomada de decisões. 

Governança para sustentar a evolução da IA 

A governança de IA não é um projeto com início, meio e fim. Tecnologias evoluem, regulamentações mudam e novos riscos surgem constantemente. Por essa razão, organizações maduras precisam manter processos contínuos de monitoramento, avaliação de riscos, capacitação das equipes, atualização de políticas e acompanhamento de resultados. Muito além de controlar ferramentas, governar IA significa acompanhar todo o ciclo de vida das aplicações. 

Essa jornada também passa pela qualidade da informação. À medida que a inteligência artificial depende cada vez mais de dados para gerar resultados, governança de IA e governança de dados tornam-se temas indissociáveis. Transparência sobre a origem das informações, critérios de acesso, segurança e rastreabilidade dos resultados são elementos fundamentais para fortalecer a confiança e sustentar a geração de valor. 

Transformando potencial em valor sustentável 

A inteligência artificial continuará transformando mercados, processos e modelos de negócio. O diferencial competitivo das organizações não estará apenas na capacidade de investir em tecnologia, mas na capacidade de convertê-la em valor concreto, sustentável e alinhado aos objetivos do negócio. 

As empresas que obtiverem melhores resultados serão aquelas capazes de integrar estratégia, governança, dados, pessoas e gestão de riscos em uma abordagem consistente e orientada à geração de valor. A governança assume um papel essencial nesse processo, criando as condições necessárias para que a inovação avance com confiança, segurança, transparência e responsabilidade. 

O desafio não está em eliminar completamente os riscos inerentes à inovação, mas em compreendê-los, monitorá-los e administrá-los de forma eficaz. Em um cenário de rápida evolução tecnológica, essa capacidade de equilibrar oportunidades e riscos será determinante para transformar o potencial da inteligência artificial em vantagem competitiva e resultados concretos para o negócio.  

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Este conteúdo reúne reflexões sobre os principais desafios relacionados à governança, geração de valor, gestão de riscos e adoção responsável da inteligência artificial. Para explorar esses temas com mais profundidade, confira a gravação completa do evento AI Sob Governança.

 

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