O Brasil se destaca globalmente por sua matriz elétrica majoritariamente limpa e renovável e por uma matriz energética relativamente limpa e diversificada, posicionando o país como um ator relevante na transição energética. A expansão contínua das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, reforça essa vantagem competitiva.
Apesar dessas fortalezas, o setor enfrenta desafios estruturais que impactam diretamente as empresas de médio porte. Em alguns segmentos, os custos de energia podem representar até 40% das despesas operacionais, tornando a volatilidade dos preços uma preocupação significativa. O aumento dos custos de energia afeta não apenas a produção, mas também o transporte e a cadeia de suprimentos, influenciando preços em toda a economia.
Ao mesmo tempo, o país passa por uma importante transformação regulatória. Após as reformas recentes, o Brasil avança rumo à abertura total do mercado livre de energia. Após a abertura aos consumidores de média e alta tensão em janeiro de 2024, decreto federal recente estabeleceu a abertura do mercado aos consumidores comerciais e industriais de baixa tensão a partir de 2027, seguidos pelos consumidores residenciais em 2028. Essa mudança estrutural, que aguarda regulamentação pela Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, deverá ampliar a concorrência, aumentar as opções de fornecedores e modernizar as estruturas tarifárias.
Segundo Élica Martins, Sócia e Líder de Energia da Grant Thornton Brasil e Global Head of Energy Content, a diversidade da matriz energética brasileira continua sendo um importante diferencial competitivo. No entanto, a transição para um mercado mais liberalizado e competitivo exige uma gestão energética cada vez mais estratégica e orientada por dados. “A segurança energética voltou ao centro das decisões, tornando a transição mais complexa e mais gradual.”
A especialista observa que as empresas não podem mais se concentrar apenas em garantir o abastecimento. É necessário incorporar análise de riscos, contratação de energia renovável, monitoramento de cenários e iniciativas de eficiência aos planos de longo prazo. “A volatilidade não desapareceu. O que mudou foi a necessidade de tratá-la como um componente estrutural da gestão corporativa de energia no Brasil.”
Élica também destaca uma mudança mais ampla nas prioridades do setor: “O desafio já não é apenas produzir energia, mas garantir seu uso eficiente, o que aumenta a importância de soluções como armazenamento e gestão inteligente dos sistemas.”
Na visão de Alexei Vivan, sócio e líder da prática de energia de CGM Advogados, presidente da ABCE, do SindiEnergia/SP e do FMASE, diretor titular de energia da FIESP e membro do Conselho Estadual de Política Energética de São Paulo - CEPE, toda oportunidade traz risco que, se conhecido e bem dimensionado, representa importante diferencial competitivo.
No Brasil, o preço “spot” da energia, que baliza as negociações de médio e longo prazos, é definido por fórmula matemática, com algoritmos fortemente influenciados pela quantidade de água armazenada nos reservatórios das principais usinas hidrelétricas. Portanto, num modelo em que a precificação da energia não decorre da oferta e demanda, é relevante a eficiência na previsão de chuvas nas cabeceiras dos rios que abastecem esses reservatórios.
A nova realidade climática tem alterado o regime de chuvas e dificultado, ainda mais, sua previsão, provocando graves problemas de liquidez de energia e de solvência de comercializadoras atacadistas de energia, que intermediam as operações no mercado livre para grandes consumidores de energia. Por outro lado, o acesso a este mercado pelos consumidores de baixa tensão somente ocorre por meio de uma comercializadora varejista que, diversamente da atacadista, responsabiliza-se pela adimplência desses consumidores.
Para Alexei, “além da usual volatidade dos preços e dificuldade de sua previsão, os novos consumidores do mercado livre precisam estar atentos à solidez e à política de exposição ao risco das comercializadoras varejistas com quem contratarem”.
Para as empresas brasileiras, a oportunidade está em transformar essas mudanças em vantagem competitiva, combinando diversificação energética, eficiência operacional e gestão proativa de riscos em um mercado cada vez mais dinâmico e aberto.