Custos de Energia: da gestão da volatilidade à vantagem estratégica
Insights
Por: Élica Martins, Dr. Alexander Budzinski, Barry Fraser, Imad Adileh
28 jul. 20269 min leitura
Índice
Para muitas empresas, a volatilidade dos preços de energia já foi vista como um desafio temporário, impulsionado por eventos extraordinários. Hoje, essa percepção não se sustenta mais. Tensões geopolíticas, políticas de transição energética, limitações de infraestrutura e mudanças na dinâmica dos mercados transformaram a volatilidade em uma característica permanente do ambiente de negócios.
Nos últimos anos, as empresas de médio porte passaram de uma postura reativa diante dos choques nos preços da energia para a adoção de respostas estruturadas e estratégicas. O que começou durante a volatilidade observada pelo International Business Report (IBR), da Grant Thornton, entre 2022 e 2024 evoluiu para abordagens mais sofisticadas, incluindo estratégias de hedge, gestão de carga, diversificação de portfólio e adoção seletiva de fontes renováveis.
Essa transformação continuou ao longo do exercício fiscal de 2025, quando a pressão dos custos de energia apresentou uma melhora modesta, mas relevante. A parcela de empresas que identificaram a energia como uma das principais restrições ao crescimento caiu de 55% para 52%. Essa melhora reflete maior disciplina nos processos de contratação, acesso mais amplo a contratos diversificados de fornecimento e práticas mais eficazes de gestão de custos — e não o desaparecimento dos riscos.
É importante destacar que essas conclusões refletem as condições observadas até o encerramento do exercício fiscal de 2025. A escalada das tensões geopolíticas no início de 2026, especialmente envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz, ocorreu após o período analisado e, portanto, não influencia estes resultados. No entanto, reforça uma realidade crítica para as empresas: a volatilidade energética não é cíclica; ela é estrutural.
A principal questão para os líderes empresariais de médio porte já não é se os mercados de energia permanecerão voláteis, mas como transformar essa volatilidade em vantagem competitiva por meio da gestão da energia como um portfólio estratégico, da construção de flexibilidade nas aquisições e do investimento em processos decisórios baseados em dados.
O que os dados de 2025 revelam
A redução da pressão reportada evidencia uma mudança estrutural na forma como as empresas abordam a questão energética. Cada vez mais, elas estão aplicando os aprendizados das recentes crises por meio de:
adoção de contratos híbridos, combinando preços fixos e indexados;
diversificação de fornecedores e fontes de abastecimento;
ampliação dos contratos de compra de energia (PPAs) e da geração própria;
fortalecimento do planejamento de liquidez e dos testes de estresse relacionados aos custos energéticos.
Esse movimento representa uma transição da gestão reativa de custos para a gestão proativa de riscos, na qual a volatilidade é modelada, monitorada e integrada ao planejamento financeiro.
O que esperar ainda em 2026
Embora 2025 tenha apresentado sinais de estabilização, os acontecimentos do início de 2026 apontam para uma renovação da volatilidade. A crise geopolítica envolvendo o Irã elevou os prêmios de risco nos mercados globais de energia, especialmente devido às preocupações em torno do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo e gás do mundo.
Para as empresas, isso reforça a necessidade de planejar cenários futuros em vez de depender exclusivamente das tendências históricas. Entre as principais prioridades estratégicas estão:
fortalecer a resiliência das compras por meio de estruturas contratuais diversificadas;
ampliar a flexibilidade com geração local e soluções de armazenamento;
aprimorar o planejamento de cenários e a gestão de liquidez para lidar com possíveis interrupções no fornecimento.
A energia deixou de ser apenas uma linha de custo e se tornou uma variável estratégica central. Apesar desses desafios serem globais, seus impactos variam significativamente entre as regiões. As experiências de empresas em mercados estratégicos demonstram como as organizações estão se adaptando a diferentes realidades energéticas.
Perspectivas regionais
O Brasil se destaca globalmente por sua matriz energética relativamente limpa e diversificada, posicionando o país como um ator relevante na transição energética. A expansão contínua das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, reforça essa vantagem competitiva.
Apesar dessas fortalezas, o setor enfrenta desafios estruturais que impactam diretamente as empresas de médio porte. Em alguns segmentos, os custos de energia podem representar até 40% das despesas operacionais, tornando a volatilidade dos preços uma preocupação significativa. O aumento dos custos de energia afeta não apenas a produção, mas também o transporte e a cadeia de suprimentos, influenciando preços em toda a economia.
Ao mesmo tempo, o país passa por uma importante transformação regulatória. Após as reformas recentes, o Brasil avança rumo à abertura total do mercado livre de energia, com consumidores comerciais e industriais de baixa tensão tendo acesso a partir de 2027, seguidos pelos consumidores residenciais em 2028. Essa mudança estrutural deverá ampliar a concorrência, aumentar as opções de fornecedores e modernizar as estruturas tarifárias.
Segundo Élica Martins, Sócia e Líder de Energia da Grant Thornton Brasil e Global Head of Energy Content, a diversidade da matriz energética brasileira continua sendo um importante diferencial competitivo. No entanto, a transição para um mercado mais liberalizado e competitivo exige uma gestão energética cada vez mais estratégica e orientada por dados. “A segurança energética voltou ao centro das decisões, tornando a transição mais complexa e mais gradual.”
A especialista observa que as empresas não podem mais se concentrar apenas em garantir o abastecimento. É necessário incorporar análise de riscos, contratação de energia renovável, monitoramento de cenários e iniciativas de eficiência aos planos de longo prazo. “A volatilidade não desapareceu. O que mudou foi a necessidade de tratá-la como um componente estrutural da gestão corporativa de energia no Brasil.”
Élica também destaca uma mudança mais ampla nas prioridades do setor: “O desafio já não é apenas produzir energia, mas garantir seu uso eficiente, o que aumenta a importância de soluções como armazenamento e gestão inteligente dos sistemas.”
Para as empresas brasileiras, a oportunidade está em transformar essas mudanças em vantagem competitiva, combinando diversificação energética, eficiência operacional e gestão proativa de riscos em um mercado cada vez mais dinâmico e aberto.
A Arábia Saudita ocupa uma posição única como maior exportadora mundial de petróleo e, ao mesmo tempo, como país em plena transição energética. Seu papel como principal "produtor regulador" da OPEP+ a coloca como um importante fator de estabilização dos mercados globais, especialmente em períodos de incerteza geopolítica.
Paralelamente, a dinâmica energética doméstica vem mudando. Reformas graduais nos subsídios, dentro da estratégia Vision 2030, combinadas ao aumento dos investimentos em energias renováveis, estão remodelando a estrutura de custos das empresas. Embora as fontes renováveis ainda representem uma parcela relativamente pequena da matriz energética, seu crescimento vem se acelerando rapidamente.
Para as empresas de médio porte, isso gera tanto oportunidades quanto pressões. Como destaca Imad Adileh, sócio da Grant Thornton Kingdom Arab Emirates, “a volatilidade dos preços da energia já não é uma surpresa; é uma característica estrutural. O verdadeiro desafio está em transformar essa realidade em vantagem competitiva, em vez de simplesmente absorvê-la como custo.”
Essa transição não é apenas econômica, mas também estratégica, exigindo adaptação a um ambiente energético mais competitivo e menos subsidiado.
Barry Fraser, Diretor de Advisory e Líder de Energia da Grant Thornton UK, afirma que, no Reino Unido, as preocupações relacionadas aos custos de energia diminuíram durante a primeira metade de 2025, mas voltaram a crescer no segundo semestre, apesar da relativa estabilidade dos preços do petróleo. Isso reflete desafios estruturais, incluindo capacidade doméstica limitada, restrições de infraestrutura e crescente dependência de importações.
Com o país importando uma parcela significativa de seu suprimento energético, espera-se que as disrupções globais observadas em 2026 ampliem as pressões de custo e a incerteza. Para empresas de médio porte, a segurança energética está se tornando tão importante quanto o preço da energia.
A Alemanha continua enfrentando um cenário energético complexo, no qual os objetivos de descarbonização se cruzam com limitações econômicas e de infraestrutura.
Embora a transição para fontes renováveis permaneça uma prioridade, o avanço tem sido dificultado por:
elevados investimentos iniciais;
incertezas regulatórias;
atrasos na expansão das redes elétricas.
Embora os preços da energia tenham começado a se normalizar no final de 2025, as novas tensões geopolíticas voltaram a aumentar a volatilidade. A capacidade de estabilizar os custos nos próximos anos dependerá do desenvolvimento da infraestrutura e da clareza regulatória, ambos ainda em evolução, segundo Dr. Alexander Budzinski, Global Head of Energy and Natural Resources.
A Argentina viveu um ambiente energético mais favorável em 2025, apoiado pelo aumento da produção doméstica e pela melhora da balança comercial. Como resultado, a preocupação com os custos de energia entre empresas de médio porte caiu para níveis historicamente baixos, refletindo maior previsibilidade e menor risco de abastecimento.
Entretanto, vulnerabilidades estruturais permanecem. Apesar dos avanços proporcionados por projetos como Vaca Muerta, o sistema continua exposto a riscos sazonais e às oscilações dos preços internacionais.
Olhando para frente, os desenvolvimentos globais de 2026 devem trazer tanto oportunidades quanto desafios. Preços internacionais mais elevados podem fortalecer o potencial exportador, mas também aumentar os custos domésticos e as pressões inflacionárias.
Conclusão
A evolução dos mercados de energia nos últimos anos representa uma mudança fundamental para as empresas de médio porte. A energia deixou de ser uma variável administrada de forma passiva para se tornar uma alavanca estratégica capaz de influenciar resiliência, competitividade e crescimento de longo prazo.
À medida que a volatilidade se torna estrutural, as organizações mais bem-sucedidas serão aquelas que:
tratam a energia como um portfólio gerenciado;
investem em flexibilidade e diversificação;
incorporam considerações energéticas ao planejamento financeiro e operacional;
fortalecem sua capacidade de antecipar e responder às mudanças do mercado;
integram a estratégia energética às decisões de negócio e investimento.
A transição não se resume à adoção de fontes mais limpas. Trata-se de construir estratégias energéticas mais inteligentes e resilientes em um mundo cada vez mais imprevisível. À medida que fatores geopolíticos, mudanças regulatórias e o avanço da transição energética continuam remodelando os mercados, as organizações que adotarem uma abordagem proativa e orientada por dados estarão melhor posicionadas para navegar as incertezas e capturar novas oportunidades.
Como podemos ajudar?
Esperamos que as informações apresentadas neste artigo contribuam para ampliar sua compreensão sobre as preocupações relacionadas à energia. Se desejar discutir qualquer um dos temas abordados, entre em contato com seu representante habitual da Grant Thornton, sua firma membro local ou nossos líderes globais de Energia e Recursos Naturais (ENR).
O International Business Report (IBR) , pesquisa global trimestral da Grant Thornton que mede as expectativas do empresariado, revela que os líderes brasileiros seguem demonstrando resiliência e confiança cautelosa, mesmo diante de sinais de desaceleração em alguns indicadores-chave no terceiro trimestre.