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O futuro do trabalho: lideranças globais compartilham suas percepções

Conforme as lideranças empresariais concentram seus esforços na recuperação dos negócios e na possibilidade de retorno ao trabalho no escritório, reunimos seis CEOs e quatro CFOs para compartilhar suas reflexões sobre os últimos três meses e analisar as oportunidades futuras.

Embora a recuperação seja um processo lento e seja um desafio encontrar maneiras de fazer a equipe se sentir confortável para voltar ao trabalho, muitas empresas dedicaram mais tempo durante o isolamento à comunicação, aprendendo muito mais sobre o que é importante para seus clientes e funcionários. Os líderes que participaram de nossa conversa disseram que agora estavam focados em levar adiante esse aprendizado.

Durante a conversa, houve três prioridades principais que surgiram para os líderes empresariais abordados pela Grant Thornton UK nos próximos três a seis meses:

1. Retorno ao trabalho

Em todos os setores, as empresas estão começando a ativar planos para os funcionários retornarem ao trabalho no escritório. Os líderes que participaram de nossa conversa disseram que estavam se concentrando no bem-estar de suas equipes e nas considerações logísticas à medida que eles começavam a sair do lockdown.

Todos concordaram que a saúde dos funcionários é primordial, e os funcionários não estão apenas expressando preocupações com sua segurança no escritório, mas também com o risco representado por seu deslocamento. Os participantes disseram que as principais preocupações dos funcionários no retorno ao trabalho eram:

  • a segurança do uso de transporte público na ausência de vacina
  • compromissos contínuos de cuidados infantis causados ​​pelo fechamento de escolas
  • perder a flexibilidade recém-descoberta que encontraram no home office

Os líderes empresariais estão cientes de que as decisões que tomam em relação ao retorno ao trabalho serão examinadas, destacando a importância de os empregadores ouvirem seu pessoal. Os participantes relataram diferentes níveis de preocupação de suas próprias pesquisas internas, com resultados variando entre os setores.

Por exemplo, de acordo com dois CEOs do setor de tecnologia, mídia e telecomunicações (TMT), apenas 5 a 30% dos funcionários desejavam retornar ao escritório antes de outubro, enquanto um CFO trabalhando no setor imobiliário sugeriu que os níveis de capacidade provavelmente permanecerão abaixo de 100% até 2021. É uma situação desafiadora e os líderes esperam que as atitudes em relação ao escritório voltem ao normal, mas muitos também reconheceram que o 'novo normal' provavelmente exigirá que eles ofereçam mais oportunidades de trabalhos remotos ou home office.

Os aspectos práticos do retorno ao trabalho também foram um problema para os líderes. Embora todos os participantes tenham experimentado medidas de distanciamento social no local de trabalho, a implementação bem-sucedida dependeu da adoção dos funcionários e de quão bem as mudanças funcionaram para a empresa. Muitos empregadores continuam a incentivar o home office, ao mesmo tempo que limitam a capacidade nos escritórios, orientações para as equipes e a opção de retornar voluntariamente.

Os líderes de negócios agora reconhecem a necessidade de serem mais adaptáveis ​​ao desejo de seus funcionários de trabalhar remotamente, e a tecnologia é a chave para alcançar isso. De acordo com a pesquisa Cultura Organizacional no Novo Normal, realizada pela Grant Thornton Brasil em parceria com a Culture for Performance, a adaptabilidade ao cenário é um valor identificado por 63% dos profissionais e a conectividade digital por 29% durante a pandemia. O levantamento revelou, ainda, que a atual crise trouxe um maior foco para a saúde, bem-estar e qualidade de vida dos funcionários, além de acelerar as respostas ao novo com o apoio de tecnologia e muita dose de flexibilidade e resiliência.

Ser visto fazendo a coisa certa também é importante para a lealdade do funcionário e, portanto, até que a segurança possa ser garantida, a opção de retornar ao escritório provavelmente será um critério do próprio colaborador. Esta escolha pode ser afetada pela localização do escritório. Por exemplo, um líder empresarial disse que a capacidade e o interesse dos funcionários para voltar ao trabalho no escritório variavam de acordo com a localização. Os estados costeiros dos EUA observaram uma taxa de infecção maior e os trabalhadores estavam mais preocupados com o retorno ao escritório, sugerindo que a exposição e o nível de risco de um local estão tendo um impacto substancial nas considerações comerciais mais amplas.

2. Cultura da empresa

Algumas empresas estão começando a observar o impacto da ausência de um escritório na cultura da empresa. Um escritório promove a criatividade inesperada e representa os "valores e princípios" do negócio. Os participantes sentem que o ambiente de trabalho e o aprendizado compartilhado são fundamentais, especialmente para a geração mais jovem.

Os líderes estavam preocupados com o fato de que a transição do escritório físico pode apresentar desafios para atrair novos talentos mais jovens, onde a socialização desempenha um papel central em seu desenvolvimento e motivação. E, a longo prazo, trabalhar virtualmente pode diminuir o senso de cultura, especialmente porque os funcionários inevitavelmente entram e saem.

No Brasil, entre os principais valores que os profissionais têm ressaltado como característicos no pós-pandemia estão: bem-estar (30%), aprendizagem contínua (26%), atitude positiva (25%) e engajamento dos funcionários (19%). A pesquisa relacionada à cultura organizacional realizada pela Grant Thornton Brasil e Culture for Performance também analisou o nível de entropia cultural – que indica o percentual de energia consumida pelas pessoas em trabalhos improdutivos – revelando sua diminuição de 17% para 15% e mudança de foco. Antes da pandemia, os maiores “ofensores do trabalho produtivo” nas empresas eram burocracia, excesso de controles, feudos, retenção de informações e o peso da estrutura hierarquizada. Durante a pandemia, todos estes itens perderam força, mas abriu espaço para redução de custos, cautela e demora na tomada de decisões e a insegurança no emprego.

A comunicação é um impulsionador cada vez mais importante da cultura nesse momento. Quando entramos no bloqueio, ficou evidente para algumas empresas que sua força de trabalho não estava equipada com as ferramentas certas para se comunicar com os funcionários de forma eficaz em um mundo repentinamente online.

Muitos CEOs com quem conversamos identificaram a comunicação como crucial para apoiar a equipe e, em particular, aqueles que precisam retornar ao trabalho presencial. As empresas do setor de tecnologia, por exemplo, lançaram sessões virtuais inovadoras sobre bem-estar, saúde, comunidade e entretenimento para ajudar a manter um senso de comunidade.

3. Trabalho ágil

Os líderes empresariais consideraram unanimemente que esse período de trabalho em casa gerou níveis mais elevados de produtividade. Para alguns, isso representa a opção de mudar para um modelo mais ágil no longo prazo.

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As empresas adotaram abordagens diferentes para configurar o home office. Algumas ofereceram suporte para a adaptação do ambiente dedicado ao trabalho na casa de seus funcionários, enquanto outras encararam a situação como temporária.

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Ronaldo Loyola, sócio da área de Capital Humano da Grant Thornton, explica que “durante a crise da Covid, as empresas estão tendo que se adaptar mais rapidamente, acelerando a digitalização do seu negócio. Além disso, aumentou a importância da aprendizagem e há uma grande demanda por bem-estar e por comunicação transparente e com significado”.

Tecnologia se tornou facilitadora

A mudança repentina para trabalhar em casa acelerou a mudança para o digital e destacou as oportunidades que a tecnologia apresenta. Vimos uma mudança transformadora em todo o cenário de eventos, de noites de premiação virtuais a webinars. Para o setor de tecnologia, isso está oferecendo a oportunidade de diversificar seus produtos para atender ao ‘novo normal’, abrindo caminho para o crescimento futuro da receita.

A tecnologia continua ajudando as empresas a se tornarem resilientes e dinâmicas. As empresas cinematográficas, por exemplo, estão utilizando smart-stage LED screens ao filmar, eliminando a necessidade de "filmar no local". Novas abordagens ajudarão a indústria a eliminar a dependência de viagens a locais físicos, economizando dinheiro e tempo no futuro.

De acordo com o International Business Report (IBR) da Grant Thornton, 52% do empresariado brasileiro demonstram a intenção de implementar mais recursos tecnológicos e realizar a transformação digital em seus negócios após a crise.

Embora o ‘impulso para o digital’ esteja subindo no topo da agenda dos CEOs, isso representa um desafio para alguns setores. O setor imobiliário, por exemplo, teve que introduzir novos departamentos para dar suporte a uma maior ênfase na tecnologia. Funções como arquitetos de dados, engenheiros de software e analistas de dados agora estão sendo criadas em setores que antes não eram associados à tecnologia, como imóveis e viagens.

Transferência remota de habilidades

A retenção de habilidades levanta outros desafios. Antes do bloqueio, as empresas gastavam mais da metade de seus orçamentos de treinamento "na sala de aula". No entanto, a aprendizagem e a educação migraram rapidamente para as plataformas digitais. O CEO de uma empresa de tecnologia educacional comentou que mais de 70% do que aprendemos ocorre informalmente, preocupando-se com o fato de que muito do que aprendemos e a transferência de habilidades são inerentes a estar em um escritório.

O desafio para os provedores de EdTech será como transferir informalmente o aprendizado online e encorajar uma maior adoção de plataformas de e-Learning com custo reduzido. Os líderes também precisarão pensar sobre sua abordagem de compartilhamento de conhecimento e transferência de habilidades, dedicando mais tempo aos colegas.

Mantendo a dinâmica

A Covid-19 apresentou a oportunidade para muitas empresas testarem a realidade dos funcionários que trabalham em casa. Todos os 10 líderes de negócios em nossa mesa redonda ficaram impressionados com o nível de produtividade de seus negócios e funcionários durante o bloqueio, desafiando algumas das ideias anteriores sobre trabalho remoto. Manter o ímpeto fora dessas circunstâncias únicas agora seria a chave para continuar com as mudanças causadas pela pandemia.

O estabelecimento de tecnologia para medir a produtividade e a motivação da equipe será crucial para os líderes empresariais. Acertar significa ir além da implementação de novas ferramentas de comunicação para criar um sistema que fomente a cultura da empresa, gere confiança nessas novas formas de trabalhar e invista na infraestrutura técnica para dar suporte às necessidades de treinamento e desenvolvimento profissional.

Por: Nicola Sartori, líder de M&A Retail e Consumer Brands na Grant Thornton UK