ARTIGO

Como integrar sustentabilidade e inovação ao processo produtivo?

“Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades” - Gro Harlem Brundtland


Mercado

Mudanças no cenário do mercado de alimentos estão ocorrendo devido à evolução dos desejos dos consumidores. Fabricantes e produtores agora estão sentindo o aumento da competitividade com o surgimento crescente de novas marcas disruptivas, que estão comandando a participação de mercado.

Para empresas da indústria de alimentos é imperativo que sejam tomadas medidas para garantir que suas marcas permaneçam relevantes. Nenhum setor pode se dar ao luxo da não adaptação às mudanças no ambiente de negócios. Há oportunidades nesse cenário em transformação que devem ter a atenção dos líderes do setor.

Embora o termo "desenvolvimento sustentável" seja amplamente utilizado atualmente, a ambiguidade em torno de sua interpretação ainda permanece. As abordagens individuais ao desenvolvimento sustentável serão acompanhadas por méritos e desafios, dependendo do ponto de vista ideológico de seus motivadores e da compreensão do conceito.

Neste artigo, examinamos a maneira como as empresas de alimentos bem-sucedidas podem compreender e incorporar melhor a sustentabilidade em seus produtos já existentes e, também, nos processos iniciais de desenvolvimento de novos produtos, a fim de permanecer relevantes para a mudança nas demandas dos consumidores.

Transformação

Ao abordar o desenvolvimento sustentável, é necessária a adoção de um novo conjunto de princípios para desafiar os padrões de produção e de consumo e promover a mudança de uma economia linear e extrativa para uma economia circular. Barilla é uma dessas marcas que pressiona pela inovação sustentável – anunciou o lançamento de um programa acelerador, para trabalhar ao lado de empreendedores, trazendo ao mercado produtos alimentícios mais sustentáveis. Com isso, a Barilla ajudará as startups a desenvolver soluções para os desafios em sua área de foco, ao longo de um programa de oito semanas para trazer inovação à economia circular, além de promover a saúde pública.

Para que ocorra a mudança para um novo modus operandi, diversas inovações, formas de pensar e ideias devem ser compartilhadas e adotadas. Uma sinergia de inovação e sustentabilidade são as forças principais na criação de soluções para os desafios do desenvolvimento sustentável. O vice-presidente regional da Danone do Reino Unido, Bélgica, Holanda e Irlanda, Adam Grant, recentemente pediu mais colaboração em todo o setor. “Não estamos nos movendo rápido o suficiente nessa direção. Não agimos coletivamente. Em determinado sentido, estamos muito focados em competir uns contra os outros, em vez de realmente pensarmos sobre quais são as áreas em que podemos trabalhar juntos", afirmou o executivo.

Processo de inovação

O processo de inovação em si envolve muitos estágios, e um dos mais utilizados é o Processo Stage Gate. Esse processo de cinco estágios é um método linear, em que cada estágio é marcado por objetivos, cada um dos quais deve ser cumprido antes de continuar na próxima fase ou gate. Devido à redução do ciclo de vida de tendências e demandas dos consumidores na indústria de alimentos, o processo stage gate é uma ferramenta ideal, pois possui um forte foco no cliente.

O processo começa com uma fase de ideação, através da descoberta e geração de novas ideias. O termo desta fase é conhecido como Fuzzy Front End of Innovation (FFE). Foi definido como as atividades que antecederam o Processo Estruturado de Desenvolvimento de Novos Produtos (NPD) ou processo stage gate. As atividades no estágio do FFE são frequentemente não estruturadas, imprevisíveis e caóticas. Portanto, o FFE pode ser visto como o pré-requisito para que ocorra qualquer inovação e geração de ideias. Historicamente, a sustentabilidade não foi abordada no processo NPD na indústria de alimentos, entretanto, agora está claro que ele precisa ser abordado durante toda a fase de concepção do processo de inovação para garantir que seus princípios e requisitos sejam atendidos em todas as etapas. A maior parte do impacto ambiental de um produto é determinada em seu desenvolvimento. Portanto, abordá-lo nesse estágio é mais fácil a longo prazo do que tentar transformar a sustentabilidade em um produto.

Preenchendo os gaps

Todo processo de inovação começa com uma observação do estado atual e como ele difere das nossas expectativas. Isso é conhecido como um gap de observação. O processo de inovação visa preencher esse gap, definindo um problema e gerando possíveis soluções. O processo FFE é, então, concluído, analisando e selecionando a ideia de solução mais adequada.

Um conjunto diferente de habilidades é necessário ao longo do processo de inovação para garantir que a melhor abordagem de solução de problemas seja adotada. Nos estágios iniciais, é necessário criatividade e paciência, definindo uma visão de liderança, criando um ambiente adequado e seguro e deixando os detalhes para a força de trabalho criativa. Nos estágios posteriores do processo, é necessária uma liderança mais direta, onde as necessidades mudam da criatividade para a implementação.

Considerando o processo integralmente, existem três elementos distintos do modelo para o desenvolvimento de ideias de soluções sustentáveis:

  1. O primeiro elemento é a presença dos drivers de inovação. Isso inclui criatividade, motivação e conhecimento. Um processo FFE bem-sucedido só pode ser executado com êxito se cada um dos três drivers for incorporado. Quanto mais esses drivers são examinados e esgotados, mais eficientemente o processo FFE pode ser executado e, por sua vez, levar a soluções de maior qualidade.
  2. O segundo elemento do modelo são os fatores de sustentabilidade. Estes atingem os outros dois elementos. Os fatores são caracterizados por princípios de sustentabilidade e objetivos de sustentabilidade.
  3. O terceiro elemento é o processo FFE, onde é estabelecida uma necessidade de sustentabilidade. Alimentado pelos impulsionadores da inovação, segue-se um processo de quatro etapas: o problema é detectado, analisado, são sugeridas soluções e então, uma é escolhida. O resultado disso é uma ideia de solução concreta.


Inovação Sustentável

Esse modelo permite lidar com o chamado “ambiente nebuloso” da fase de ideação para uma inovação sustentável. A saída desse modelo, a ideia da solução concreta, deve ser transformada em uma inovação competitiva, onde é suportada por um modelo de negócio e case. Ferramentas como o Diamond Model permitem uma abordagem altamente iterativa, onde a base da solução é focada no cliente. Esta solução baseada no cliente descreve um modelo de negócios validado com um produto totalmente projetado e testado.

Sustentabilidade como diferencial

Cada vez mais, vemos empresas, como as que optaram por se tornar Certified B Corporations (B Corps), selecionando modelos de inovação como esse. Algumas B Corps conhecidas que estão fazendo grandes avanços na área incluem Danone, Innocent Drinks e Propercorn. A sustentabilidade tornou-se inegociável para essas marcas e é um determinante integral da lealdade dos clientes de que elas dispõem.

A crescente importância da sustentabilidade para consumidores e empresas deu início a uma era em que ela se tornou um fator-chave na atração de novos talentos para as empresas. O bem-sucedido programa Origin Green, da Bord Bia, destacou a disposição de muitas marcas de mudar para esse modo de operação.

O que esperar do futuro?

A incorporação da sustentabilidade no processo de inovação permitirá que as empresas se posicionem melhor para atender às mudanças nas demandas dos consumidores. Ao conhecer os elementos que alimentam esse processo de inovação, os líderes podem tomar decisões informadas sobre seu novo pipeline de desenvolvimento de produtos. Isso permitirá que eles defendam e aumentem sua participação no mercado, enquanto os concorrentes atrasados tentam adaptar a sustentabilidade novamente aos seus produtos.