
A maturidade digital das empresas brasileiras apresenta variações, com alguns avanços específicos e persistência de desafios estruturais.
A pesquisa realizada pela Grant Thornton Brasil e Opice Blum confirma essa percepção: embora 66,5% das empresas considerem os riscos cibernéticos entre suas cinco principais preocupações, apenas 66,1% afirmam estar de fato estruturadas para combater ataques. O número parece alto, mas esconde disparidades profundas quando se analisam práticas, processos e o envolvimento da alta gestão. Na prática, ainda são muitas as organizações que se preocupam, mas não se preparam.
Maturidade que não se mede por ferramentas
Um erro comum em muitas empresas brasileiras é confundir maturidade em cibersegurança com quantidade de soluções implementadas. Ter um firewall moderno, um EDR com inteligência artificial e autenticação multifator não equivale a estar protegido, especialmente se a governança for fraca, os processos desarticulados e a resposta a incidentes inexistente.
Maturidade cibernética real está na forma como a organização pensa, age e reage ao risco digital. Ela depende de cinco elementos centrais:
- Liderança envolvida;
- Estrutura organizacional definida;
- Processos integrados;
- Cultura de segurança difundida;
- Capacidade de adaptação contínua.
Sem isso, a empresa opera em modo reativo, à mercê do próximo ataque, mesmo com um arsenal tecnológico de ponta.
A resiliência cibernética é mais do que resistir a um ataque: é conseguir manter operações críticas, proteger ativos sensíveis e se recuperar com agilidade e confiança. A maturidade começa quando a empresa reconhece que não existe segurança perfeita e que, mais importante do que evitar todo incidente, é saber como enfrentá-lo com rapidez e precisão.
Construir resiliência exige preparo técnico e processual, mas também clareza estratégica. Um plano de resposta a incidentes bem elaborado e testado, por exemplo, é um marcador claro de maturidade. Nossa pesquisa mostra que apenas 67% das empresas brasileiras possuem tal plano, e esse número cai para 64% entre aquelas que já sofreram incidentes. Em outras palavras: mesmo quem já foi atingido nem sempre aprende com o impacto.
Esse dado é particularmente preocupante porque revela um padrão comum no mercado nacional: o da maturidade reativa. Muitas empresas só fortalecem seus controles depois do incidente, e não como parte de uma evolução planejada.
Liderança: o fator mais crítico (e mais negligenciado)
Não há maturidade sem o apoio da alta administração e lideranças. A segurança da informação precisa ser tratada como um risco corporativo, não como um problema técnico do time de TI. Nossa pesquisa reforça isso: nas empresas onde a alta direção está ativamente envolvida, os níveis de mapeamento de risco, avaliação de terceiros e implementação de planos estruturados são significativamente mais altos.
Entretanto, esse engajamento ainda é tímido em boa parte das organizações brasileiras: apenas 58% das grandes empresas relatam liderança plenamente envolvida, e o percentual é menor em empresas de médio e pequeno porte. Essa lacuna revela mais do que uma questão de governança, é um indicativo de onde falha a priorização estratégica. Se a segurança não está na pauta do board, dificilmente estará na cultura da empresa.
E empresas maduras em cibersegurança colhem benefícios que vão muito além da proteção contra-ataques. Elas são vistas como mais confiáveis por clientes, parceiros e investidores. Têm respostas mais rápidas e coordenadas, reduzem seu tempo médio de recuperação após incidentes e minimizam impactos regulatórios e reputacionais.
Esse diferencial se torna evidente em momentos críticos, como processos de fusão e aquisição, disputas judiciais envolvendo dados ou investigações regulatórias. Cada vez mais, a maturidade cibernética é auditada como parte do valuation de uma empresa.
Além disso, em setores regulados, como financeiro, saúde e educação, a maturidade em segurança não é apenas uma vantagem, mas um pré-requisito. O mercado está se tornando menos tolerante com organizações que tratam segurança como um improviso técnico. Quem não se estrutura corre o risco de perder negócios e confiança.
Tendências que moldam o futuro da maturidade
A maturidade em cibersegurança não é um destino fixo, mas um processo contínuo. E os modelos mais avançados de gestão de riscos digitais estão se alinhando a novas abordagens, que exigem revisão de paradigmas tradicionais.
Entre essas tendências, destacam-se:
Essas abordagens não são modismos. Elas representam a evolução natural de empresas que entenderam que segurança deve estar integrada ao core do negócio, e não à margem da operação.
Caminhos concretos para elevar a maturidade
Avançar em maturidade cibernética requer planejamento e consistência. Não se trata de grandes investimentos imediatos, mas de decisões estratégicas sustentáveis. Os caminhos abaixo representam boas práticas para qualquer organização, independentemente do porte:
A segurança precisa de patrocínio executivo, orçamento dedicado e vínculo com o comitê de riscos. O CISO não pode atuar isolado. Sem alinhamento entre estratégia e operação, a maturidade fica estagnada.
Modelos como o NIST Cybersecurity Framework 2.0 e a ISO 27001 oferecem caminhos estruturados, escaláveis e auditáveis para evolução contínua. A adoção não precisa ser rígida, mas adaptada ao contexto e à realidade da empresa.
Um plano que nunca foi exercitado não vale mais do que uma política de prateleira. Simulações realistas, exercícios de mesa e integração entre áreas são essenciais para criar agilidade real na resposta.
Treinamentos precisam ser relevantes, contínuos e adaptados aos riscos reais do negócio. Segurança só amadurece quando é compreendida por todos, da recepção à diretoria.
Mais importante do que alertas por evento é a capacidade de entender padrões, desvios e anomalias. A detecção moderna é baseada em inteligência contextual, não apenas em assinaturas técnicas.
Maturidade é processo, não estado
A maturidade cibernética das empresas brasileiras está em transformação. O mercado já reconhece o risco, mas o desafio agora é transformar essa percepção em ação coordenada, estruturada e contínua. Não basta estar preocupado, é preciso estar preparado.
Nos próximos anos, as empresas mais resilientes serão aquelas que investirem em estratégia, não só em tecnologia. Que colocarem segurança como pilar de valor, não como custo de conformidade. Que entenderem que maturidade não se mede por um checklist, mas pela capacidade real de enfrentar o inesperado com clareza, agilidade e confiança.
Em um cenário onde o digital é o core de quase todos os negócios, a maturidade em cibersegurança não é um diferencial. É o que separa as empresas que resistem das que desaparecem.
Conte com nossos especialistas em Cybersecurity para obter orientações claras sobre as medidas que sua organização deve tomar para mitigar riscos e lidar com ameaças digitais.