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Demonstrações Financeiras - Ambiente regulatório aumenta complexidade contábil

Dois funcionários analisando tablet
Nova estrutura contábil, tributação mínima global, reforma tributária e exigências de sustentabilidade transformam o ciclo de reporte em um desafio de governança e execução
Destaques

O fechamento das demonstrações financeiras de 2025 consolida um dos ciclos mais complexos da última década para as empresas brasileiras. A convergência de mudanças contábeis, tributárias e de sustentabilidade impõe um novo patamar de integração entre as áreas financeira, fiscal, jurídica, ESG e tecnologia, ampliando não apenas o desafio técnico, mas também o risco de governança e execução.

O ambiente regulatório atual exige que as organizações adotem postura estratégica e planejamento antecipado. O risco já não se restringe à interpretação normativa, mas à capacidade operacional de implementar controles, adaptar sistemas e alinhar decisões corporativas em tempo hábil.

Octavio sócio de Auditoria “Estamos diante de um ponto de inflexão regulatório no Brasil. O fechamento de 2025 deixa de ser apenas um exercício contábil e é um teste de maturidade de governança. As empresas que não se prepararem de forma estruturada podem enfrentar contingências fiscais, ressalvas de auditoria e impactos reputacionais relevantes”, afirma Octavio Zampirollo, sócio líder de Auditoria e Asseguração da Grant Thornton Brasil.

IFRS 18: nova estrutura da Demonstração do Resultado

Entre as principais mudanças está a IFRS 18, que substituirá o IAS 1 a partir de 2027, mas já exige preparação em 2026. A norma redefine a estrutura da Demonstração do Resultado, criando categorias obrigatórias (operacional, investimento e financiamento), novos subtotais (como lucro operacional) e regras mais específicas para agregação e desagregação de linhas.

João sócio de markets Além disso, medidas gerenciais de desempenho, como EBITDA, integram formalmente as notas explicativas, sujeitas à auditoria. “A IFRS 18 exige revisão de plano de contas, sistemas e indicadores internos. A classificação das linhas dependerá do modelo de negócio de cada companhia, aumentando o grau de julgamento técnico e a necessidade de alinhamento entre contabilidade e estratégia”, destaca João Rafael Araújo, sócio de Account Advisory e Capital Markets da Grant Thornton Brasil.

Pilar 2: tributação mínima global de 15%

Já vigente no Brasil desde 2025, o Pilar 2 estabelece uma tributação mínima global de 15% para grupos multinacionais com receita consolidada superior a € 750 milhões. O cálculo, baseado no lucro contábil ajustado (GloBE), pode gerar adicional de CSLL caso a alíquota efetiva fique abaixo do mínimo exigido.

Sabrina sócia de tributos internacionaisMesmo empresas com alíquota nominal de 34% podem ficar abaixo do piso global após ajustes técnicos, especialmente em função de incentivos fiscais, subvenções e diferenças temporárias. “Há uma percepção equivocada de que o Brasil, por ter carga tributária elevada, estaria automaticamente acima do mínimo global. Na prática, ajustes técnicos podem reduzir a alíquota efetiva e gerar provisões relevantes nas demonstrações financeiras”, explica Sabrina Lawder, sócia de Tributos Internacionais e Tax Controversy da Grant Thornton Brasil.

Tributação de dividendos e redução de incentivos

David sócio de tributosA partir de 2026, dividendos passam a ser tributados à alíquota de 10%, acompanhados de redução linear de incentivos fiscais e aumento do IRRF sobre JCP. Empresas que não formalizaram distribuições até 31 de dezembro de 2025 podem enfrentar riscos fiscais adicionais, em um ambiente ainda marcado por discussões judiciais e insegurança jurídica. “O planejamento societário e fiscal ganha ainda mais relevância. Decisões sobre distribuição de resultados precisam ser analisadas à luz das novas regras, sob risco de impactos financeiros inesperados”, pontua David Benevides, sócio líder de Tributos da Grant Thornton Brasil.

Reforma Tributária: impacto operacional e sistêmico

A Reforma Tributária entra em fase de testes em 2026, com a implementação do IVA dual (CBS + IBS), tributação no destino, split payment e apuração assistida pelo Fisco. Mais do que uma mudança de alíquotas, trata-se de uma transformação estrutural que afeta fluxo de caixa, contratos e cadeias de fornecimento. “Não estamos falando apenas de uma reforma fiscal, mas de uma transformação operacional. Sistemas, processos e contratos precisarão ser revisados. O impacto no fluxo de caixa e na cadeia de valor pode ser significativo”, complementa David.

IFRS S1 e S2: sustentabilidade com asseguração razoável

As normas IFRS S1 e S2 tornam obrigatória, a partir de 2026, a integração entre informações financeiras e ESG para companhias abertas, com exigência de asseguração razoável por auditor independente. O escopo inclui avaliação de riscos e oportunidades materiais e a consideração da cadeia de valor.

Clayton sócio de ESGO tempo médio de implementação supera seis meses, reforçando a necessidade de antecipação. “O reporte de sustentabilidade passa a ter o mesmo nível de rigor das demonstrações financeiras. Empresas que ainda não estruturaram controles internos adequados correm risco real de ressalvas”, alerta Clayton Codo, sócio de Auditoria e especialista de ESG da Grant Thornton Brasil.

Governança, integração e execução

O exercício de 2025 consolida um cenário de múltiplas transformações simultâneas: nova estrutura de demonstrações financeiras, tributação mínima global, reforma tributária estrutural, mudanças na tributação de dividendos e obrigatoriedade de reporte ESG com relatório de asseguração razoável.

Nesse contexto, o diferencial competitivo estará na capacidade de coordenação estratégica entre finanças, tributos, ESG e tecnologia. “A agenda regulatória atual exige visão integrada e atuação coordenada. Empresas que adotarem postura reativa podem enfrentar contingências, retrabalho, atraso na divulgação de informações financeiras para stakeholders e, consequentemente, perda de credibilidade. Planejamento antecipado e fortalecimento de controles internos são hoje fatores críticos de sucesso”, conclui Octavio Zampirollo.