Riscos

Como House of Cards pode ajudar na governança?

Um dos motivos que faz House of Cards ter tanto sucesso são os seus protagonistas: Frank e Claire Underwood. O que me impressiona é o fato de que a compreensão mútua desses personagens ousados e poderosos é a chave para o seu sucesso. Ambos reconhecem a necessidade de se calcular os riscos a serem assumidos - mas eles também sabem quando devem intervir e dizer ao outro se é ou não o melhor momento para assumir o risco.

Há também outra dimensão óbvia, mas ainda assim notável desses dois personagens. Tratam-se de um homem e uma mulher. Liderança, gênero e risco se entrelaçam com grande efeito no seriado. Atualmente, estes três fatores estão no topo da agenda das diretorias de empresas dinâmicas.

Assumir riscos ou fugir deles

Em todo o mundo, a Grant Thornton mantém contato com uma gama variada de empresas todos os dias. Uma coisa com a qual nos deparamos é que independentemente do seu setor ou de suas pretensões, a forma como as empresas assumem ou administram os riscos quando estes ocorrem reflete a sua cultura interna.  Por exemplo, uma cultura de “vá e faça”, onde grandes riscos são assumidos por parte da liderança da empresa, e o ambiente de tomada de decisões é encorajado pelos membros da empresa.

A cultura de risco está no centro para a governança da empresa. Este assunto tem recebido cada vez mais a atenção dos órgãos reguladores. Por exemplo, na Austrália, os órgãos reguladores do ramo de serviços financeiros, a Australian Prudential Regulatory Authority, têm abordado a responsabilidade da diretoria pela cultura de risco. O órgão regulador societário ASIC (Australian Securities and Investments Commission) também pediu penalidades civis mais severas para os executivos responsáveis por uma cultura inadequada.  

Estimulando uma cultura sólida

Dentro da empresa - gerenciar riscos ou outros casos - exige a tomada de decisões difíceis E as melhores decisões são frequentemente aquelas sujeitas a uma análise detalhada. De modo corporativo, uma cultura fraca pode ocorrer frequentemente quando todas as pessoas pensam da mesma forma ou quando a tomada de soluções não promove desafios.  Problemas recentes na Toshiba, que levaram o seu Presidente a pedir demissão abruptamente este ano, foram atribuídos em parte à governança e cultura fraca, onde as decisões não apresentavam desafios.

De forma simplificada, um conjunto diversificado de perspectivas é algo bom, quando se trata de governança. Especialmente, para a gestão de riscos. Uma razão importante para isso é que o risco não representa apenas ameaças. Ele também pode representar uma oportunidade real. Ter vários pontos de vista sobre o risco proporciona uma chance maior de detectar as ameaças e as oportunidades.

Como homens e mulheres percebem e reagem ao risco

Em pesquisas que conduzimos para o nosso Relatório Women in Business de 2017, constatamos que homens e mulheres abordam o risco e percebem a probabilidade de risco de formas diferentes. Ao contrário do que muitos possam esperar, os homens compreendem níveis mais altos de risco em seus ambientes de negócios e estão mais propensos a agir em relação a esses riscos. Em comparação, as mulheres, no geral, compreendem níveis menores de risco ao considerarem os aspectos da vida empresarial e comercial, como as mudanças políticas ou econômicas, e percebem níveis menores de oportunidade em tais mudanças.

Ambas as abordagens estão certas e erradas. O errado seria uma equipe dominada por apenas um dos gêneros ter a função de gerenciar os riscos. Essa equipe perderia os benefícios de ter percepções diferentes e das respostas ao risco que os homens e mulheres normalmente agregam.

Se apenas homens administrassem as empresas, eles estariam suscetíveis a não enxergar os riscos. E, ainda assim, muitas empresas são administradas puramente por homens. De fato, a nossa pesquisa constatou que mais de um terço das empresas mundiais - 34% - não contam com mulheres em cargos de administração sênior.

Da perspectiva do risco isto é, bem... bastante arriscado.

Inclusão e diversidade

A inclusão e a diversidade são componentes essenciais da gestão de risco, fortalecimento de cultura e, deste modo, da governança geral de uma empresa. Então, como as empresas podem maximizar a capacidade de suas equipes de gestão para que possam administrar, encorajar a cultura certa e gerenciar os riscos?

Em primeiro lugar, formando equipes de gêneros mistos para uma gestão de riscos eficiente. Nós constatamos que homens e mulheres percebem e gerenciam os riscos de formas diferentes. Ambas as abordagens são essencialmente importantes. As empresas que falham ao não convidar as mulheres para os debates ou vice-versa prejudicarão seu crescimento em longo prazo.

Em segundo lugar, dar oportunidades de liderança às mulheres fará com que elas estejam familiarizadas com o risco. Para cultivar futuros líderes diferenciados é necessário criar a confiança desde o início de suas carreiras. É necessário promover experiências sobre o trabalho para jovens mulheres, expô-las ao processo de gestão de riscos e - quando adequado - fazer com que elas participem.

Em terceiro lugar, criar uma cultura onde assumir riscos calculados faz parte de uma estratégia comercial de sucesso, e não algo a ser evitado. Criar culturas que se comuniquem de forma clara com a apetite de risco da empresa e evitar culpar as pessoas pode ajudar a criar confiança e permitir que as pessoas intervenham e abracem os riscos.

Eu não estou propondo que administremos as empresas exatamente como os personagens do Presidente e a Primeira Dama de House of Cards administram os Estados Unidos. Os caminhos que eles costumam percorrer para cumprir seus objetivos com certeza deixaram pessoas indignadas e alguns corpos espalhados ao longo do percurso! Mas o seu sucesso nas telas é devido a uma equipe de gêneros mistos que aborda as situações arriscadas de formas diferentes e que combina essas abordagens quando necessário tomar uma decisão embasada. As empresas que tiram boas lições disto terão um desempenho sólido em sua governança efetiva.

 

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