• Thiago Brehmer, Líder de Financial Services da Grant Thornton fala sobre IFRS 9 na Agência Estado

EXCLUSIVO: IMPACTO OPERACIONAL DO 'IFRS 9 LOCAL' PESA EM BANCOS E BC ADIA INÍCIO PARA 2020

São Paulo, 24/08/2018

O Banco Central decidiu adiar a entrada em vigor da tropicalização das regras do IFRS 9, que trazem novas diretrizes para a forma como os bancos reconhecem perdas e critérios chaves para a classificação de ativos. Antes previstas para terem início a partir de janeiro de 2019, as medidas começarão a valer somente em 2020. A extensão de prazo vem a reboque do impacto operacional das novas regras, que, ao atingirem diversas áreas e consumirem investimentos elevados, são consideradas a maior alteração nos processos das instituições financeiras brasileiras dos últimos tempos.

O BC não justifica o porque do adiamento. Informou apenas, em resposta ao Broadcast, que a norma, que vai adaptar as exigências do IFRS 9 para o padrão contábil brasileiro, apelidado de BRGAAP, "será publicada até o final deste ano, mas a vigência será apenas em 2020".

A extensão de prazo por parte do regulador atende a um pleito dos grandes bancos, que defendiam a postergação das novas regras, uma vez que consideravam o período de implementação muito curto diante da complexidade das mudanças. A principal preocupação de especialistas em contabilidade era de que o IFRS 9, por mudar a forma como as instituições financeiras constituem as provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, gerasse um aumento no colchão para perdas. No Brasil, porém, como os bancos são bem provisionados e as regras locais já abrangiam o conceito de perda esperada - e não apenas incorrida - o impacto é, sobretudo, operacional, uma vez que os sistemas terão de ser adaptados para fazer frente à mudança nas regras contábeis.

Esse processo tende ainda a envolver diversas áreas nas instituições financeiras, tais como gestão de riscos, tecnologia da informação (TI), contabilidade, finanças, crédito e negócios.

No Banco do Brasil, por exemplo, expandindo o escopo de aplicação da norma a todos os instrumentos financeiros, a instituição calcula que as novas regras vão impactar de 70% a 80% dos seus ativos totais. "Os bancos terão de criar uma modelagem estatística e isso é bastante complexo. Sem dúvida nenhuma, a mudança na forma de constituição de provisões é o impacto mais relevante do IFRS 9, tanto do ponto de vista operacional como de metodologia", analisa Brehmer, da Grant Thornton.


Segundo o gerente executivo do BB, Daniel Stieler, haverá uma mobilização de recursos significativos, principalmente da área de TI, para permitir que as mudanças ocorram "sem traumas". "2019 era um prazo bem desafiador, dado que alguns temas da norma ainda estão em discussão. É a maior mudança no processo operacional dos bancos nos últimos anos", avalia o gerente executivo do BB.

Criado em meio à grande crise econômica internacional de 2008, o IFRS 9 é um aprimoramento das regras contábeis internacionais e entrou em vigor em janeiro último em mais de 100 países que adotam o IFRS (do inglês, International Financial Reporting Standards). São três mudanças principais: a forma de reconhecimento de perdas, que passa de incorrida para esperada; a mensuração e classificação dos ativos; e a contabilização de hedge.

No grupo dos grandes bancos, os principais atingidos pela convergência das regras internacionais para o padrão brasileiro, de acordo com especialistas, são aqueles que publicam preferencialmente as suas demonstrações financeiras em BRGAAP e, depois, fazem ajustes para atenderem às regras internacionais. Dentre eles, estão Bradesco, BB e Caixa Econômica Federal.

Já bancos como Santander Brasil e Itaú Unibanco tendem a ser menos impactados pela mudança, uma vez que já priorizam o IFRS na publicação de suas informações. "Iniciamos a adoção do IFRS 9 há dois anos no grupo. O trabalho já está feito (para o Brasil), mas precisamos olhar as diferenças que serão exigidas entre o critério do BC e os internacionais", explica o vice-presidente executivo do Santander Brasil, Angel Santodomingo.

No caso do Itaú, o diretor de Relações com Investidores do banco, Alexsandro Broedel, conta que a instituição tomou a iniciativa de adaptar suas demonstrações financeiras trimestrais frente às exigências do IFRS 9 ainda que o regulador exija apenas a publicação anual. "O Banco Central está trazendo o IFRS 9 - já aplicado na demonstração em IFRS - para o BRGAAP. Tem algumas diferenças importantes. A norma do BC pode ser próxima ao IFRS 9, mas ainda não sabemos a versão final", afirma Broedel.

A despeito do adiamento da entrada em vigor das novas normas, a Caixa informou, em nota ao Broadcast, que sua área de riscos vem coordenando o processo de implantação das regras do IFRS 9 no decorrer dos últimos 12 meses. "O processo envolve adequação de sistemas corporativos, alteração e criação de modelos internos, dentre outros, com impacto operacional relevante na instituição", ressalta o banco.



Foto: André Dusek/Estadão

A expectativa do mercado é de que o BC mantenha, no processo de adaptação do IFRS 9, algumas exigências que a norma brasileira já faz. O diretor gerente do Bradesco, Moacir Nachbar Junior, diz que a principal preocupação do regulador é deixar gatilhos mínimos e compulsórios de provisionamento já previstos na resolução 2.682, que disciplina as regras para a constituição de PDDs.

Um renomado professor de contabilidade afirma, na condição de anonimato, que o padrão exigido pelo BC, além de "muito bom", é melhor do que as regras internacionais e tem permitido que o sistema financeiro brasileiro supere crises sem maiores problemas. Um dos entendimentos do regulador, conforme outra fonte, é de que quando o IFRS 9 requerer valor de provisão superior ao exigido na resolução 2.682, valerão as regras novas. Quando for ao contrário, prevalecerá a norma antiga.

"As novas regras exigem um esforço por parte das instituições financeiras, mas, por outro lado, podem trazer um aperfeiçoamento da gestão do sistema e ainda do modelo de crédito," avalia Nachbar Junior, do Bradesco, acrescentando que a entrada em vigor a partir de 2020 já vai ser um "desafio para os bancos".

Uma discussão que surgiu durante as audiências públicas do BC sobre a adaptação das normas de IFRS 9 junto ao mercado foi a possibilidade de o regulador unificar os dois padrões contábeis usados atualmente no País, o IFRS e o BRGAAP. O Brasil, assim como algumas outras localidades, converge as exigências do padrão internacional para a contabilidade local. Mas ainda que a unificação dos dois modelos esteja alinhada com a agenda do BC de reduzir custos de observância do sistema, fontes alegam que esse movimento joga contra a postura prudencial do regulador que, embora mais conservador, blindou o sistema nas últimas turbulências financeiras.

Provisões

A principal mudança do IFRS 9, de acordo com o sócio de Líder de Financial Services da Grant Thornton, Thiago Brehmer, diz respeito à constituição de provisões para devedores duvidosos. A nova norma surge para corrigir uma deficiência da anterior, que estabelecia um reconhecimento atrasado das perdas. Com o IFRS 9, foram adicionadas novas premissas ligadas a variáveis macroeconômicas e setoriais nos modelos de estimativas de perdas de cada banco.

Cálculos sobre os impactos da implantação do IFRS 9 no mundo apontavam para um aumento de provisões entre 15% e 20%, segundo os sócios da EY, Eduardo Perdigão, de consultoria financeira, e Gilberto Souza, de auditoria. Os bancos no Brasil, porém, segundo eles, já constituem provisões levando em conta critérios similares aos da perda esperada. As próprias instituições financeiras consultadas pelo Broadcast não consideram impactos relevantes. "O IFRS 9 não deve trazer grandes impactos em termos de volume de provisão nos grandes bancos no Brasil. Algum impacto terá, mas será irrelevante", opina Perdigão.

Quanto às outras mudanças, a norma que estabelece critérios chaves para a definição e classificação de instrumentos financeiros determina três categorias: em função do modelo de negócio da companhia, dos tipos de instrumento (de dívida ou de patrimônio) e das suas características. Já o IFRS 9, que rege sobre a contabilização de hedge, permite a manutenção do modelo antigo usado pelos bancos até 2022, quando será concluído o detalhamento da regra. (Aline Bronzati - aline.bronzati@estadao.com)